ASSUNÇÃO – O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo, mergulhando o país em sua maior crise política dos últimos anos. O anúncio foi feito por meio de um pronunciamento em vídeo nas redes sociais, poucas horas após o Congresso paraguaio iniciar formalmente os trâmites para a abertura de um processo de impeachment contra o mandatário.
Mesmo diante do pedido de renúncia, a Câmara dos Deputados do Paraguai decidiu ignorar o recuo de Peña e aprovou, por unanimidade (78 votos a favor e nenhum contra), o andamento do julgamento político por crime de responsabilidade.
O Estopim: O Colapso do Ueno Bank
A crise começou no início da semana, quando o Banco Central do Paraguai (BCP) decretou a liquidação imediata e o fechamento do Ueno Bank por severos problemas de solvência. A instituição digital atendia cerca de 2,9 milhões de correntistas — o equivalente a quase 60% da população adulta do país.
Com as operações congeladas e os aplicativos fora do ar, milhões de cidadãos amanheceram sem acesso a salários, economias e aposentadorias. A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) alertou para uma “semiparalisação” do comércio nacional, já que duas em cada três transações varejistas no país dependiam da plataforma.
Investigações do Ministério Público revelaram que o banco operava um esquema de fraude financeira, simulando a venda de uma carteira de créditos inadimplentes de US$ 74,4 milhões usando recursos emprestados da própria instituição para burlar as regras de auditoria. O rombo estimado supera os R$ 4 bilhões. Oito executivos da cúpula do banco já foram presos.
As Acusações e o Conflito de Interesses
O escândalo financeiro atingiu diretamente o Palácio de López. Santiago Peña, economista de perfil conservador eleito em 2023, foi acionista do grupo controlador do Ueno Bank até março de 2025. A oposição o acusou de conflito de interesses, prevaricação e de usar o Instituto de Seguridade Social (IPS) para injetar ilegalmente cerca de US$ 850 milhões em fundos públicos na instituição insolvente.
A situação de Peña tornou-se insustentável quando Carlos Carvallo, atual presidente do Banco Central nomeado por Peña e ex-dirigente do próprio Ueno Bank, também renunciou em meio às investigações.
Isolamento Político e a Estratégia do Foro
O golpe final no governo Peña veio de dentro de sua própria base aliada, o tradicional Partido Colorado, que domina a política paraguaia há sete décadas. Horacio Cartes, ex-presidente do país, atual chefe do partido e principal padrinho político de Peña, retirou o apoio público ao governo, afirmando que a legenda não toleraria “o roubo de fundos públicos e de pensões”.
Analistas políticos apontam que a renúncia de Peña foi uma tentativa estratégica de garantir foro privilegiado. Pela Constituição do Paraguai, ex-presidentes tornam-se automaticamente senadores vitalícios, adquirindo imunidade parlamentar. No entanto, juristas alertam que, como a Câmara dos Deputados decidiu levar adiante o impeachment, caso o Senado também vote por condená-lo, Peña perderá em definitivo o direito à cadeira vitalícia e poderá ser julgado e preso pela Justiça comum.
O que Acontece Agora?
Em seu pronunciamento de despedida, Peña pediu desculpas à população:
“Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim.”
Com a iminente destituição ou aceitação da saída de Peña, o vice-presidente Pedro Alliana deve assumir o controle do governo paraguaio. Em uma manobra paralela na mesma sessão extraordinária, a Câmara rejeitou o pedido de impeachment contra Alliana por 48 votos a 30, blindando a linha sucessória e deixando o caminho livre para que ele comande o país até o fim do mandato, previsto para 2028.
Enquanto os bastidores do poder fervem no Senado, as ruas de Assunção e de cidades fronteiriças continuam tomadas por forte policiamento e protestos inflamados de cidadãos que exigem a devolução integral de suas economias.