Horas após o ataque inédito dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, ocorridos na madrugada deste sábado (3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não havia se manifestado publicamente sobre o episódio.
A ofensiva militar teve início por volta das 2h da madrugada em Caracas (3h no horário de Brasília), quando explosões foram registradas em diferentes pontos da capital venezuelana. Moradores relataram fortes detonações, colunas de fumaça e sobrevoo de aeronaves a baixa altitude. Diversas regiões ficaram sem energia elétrica.
O silêncio de Lula ocorre em um momento delicado da política externa brasileira, marcado pelo estremecimento da relação com o antigo aliado venezuelano e por uma aproximação recente com o governo do presidente norte-americano Donald Trump.
Em nota à BBC News Brasil, o Itamaraty informou que ainda está apurando os acontecimentos antes de se manifestar oficialmente. Nos últimos meses, durante o agravamento das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, fontes do Palácio do Planalto afirmavam que o governo brasileiro não deixaria de condenar um ataque ao território venezuelano.
Para a professora Marsílea Gombata, especialista em Relações Internacionais da FAAP e pesquisadora do NUPRI-USP, a ausência de um posicionamento imediato revela dificuldades do Brasil em reassumir protagonismo regional.
“Esse não posicionamento ou posicionamento tardio mostra a dificuldade do governo brasileiro em retomar a envergadura do Brasil dos anos anteriores, especialmente nos governos Lula I e II”, avaliou.
Segundo a pesquisadora, chama atenção o fato de uma das primeiras manifestações na região ter vindo do presidente da Argentina, Javier Milei, que comemorou o ataque exaltando a “liberdade”.
Marsílea também destacou a ausência de mecanismos regionais de articulação, como a antiga União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que no passado atuou como mediadora em crises importantes da América do Sul.
Apesar do silêncio do presidente Lula, o chanceler venezuelano Yván Gil afirmou que conversou por telefone com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, que teria condenado os ataques.
“Ele expressou sua forte condenação a este ato sem precedentes de agressão militar criminosa contra o nosso povo”, publicou Gil na rede social X.
No cenário interno venezuelano, especialistas preveem instabilidade. “Coalizões do chavismo e atores estratégicos não ficarão parados. A retirada de Maduro do poder pode gerar conflitos internos e um período de grande tensão”, afirmou Marsílea.
No plano internacional, China e Rússia, principais aliados do governo venezuelano, devem se manifestar condenando a ação militar americana.
Entenda o ataque
Em publicação na rede social Truth Social, o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos realizaram um ataque de grande escala contra a Venezuela e que Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e retirados do país por via aérea.
Trump informou que a operação foi conduzida em conjunto por forças de segurança norte-americanas e anunciou que mais detalhes seriam apresentados em uma coletiva de imprensa marcada para as 13h (horário de Brasília), em Mar-a-Lago, na Flórida.
Antes da confirmação americana, o governo venezuelano denunciou oficialmente o ocorrido como uma “agressão militar criminosa” contra o território e a população do país, citando ataques em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira.
A situação segue em desenvolvimento e é acompanhada com atenção pela comunidade internacional.